Românticos e sofredores

Há duas características básicas, duas qualidades marcantes de um romântico contemporâneo. Estas duas notas de personalidade coexistem com o sofrimento de muitas pessoas, de modo que as atitudes geradas por estas qualidades têm relação direta com o sofrimento. É como dizer que elas causam sofrimento. O problema é que as pessoas se identificam com essas qualidades. E se identificando com elas, o processo de mudança é bem mais complicado. 

Estas são as duas qualidades: intensidade das emoções e presença de ilusões. Um diz respeito ao campo da sensibilidade, enquanto o outro corresponde ao pensamento. Nas duas há o elemento de exagero. Um romântico é aquele que quer sentir, mas quer sentir muito, exageradamente. E é aquele que tem idéias fantásticas, um sonhador fértil que vive no mundo da lua. Esses dois elementos em exagero levam à teatralidade, superficialidade e dramaticidade. Daí porque muitas pessoas fazem tempestade em copo d’água. 

O problema que mencionei antes da identificação é que torna tudo mais complexo. Ao se identificar com esses elementos a pessoa cria para ela um estilo de vida. Atualmente, é um estilo incentivado pela mídia e vendido por muitas indústrias. O resultado é a fuga da realidade para um mundo ilusório – leia-se: um mundo de fantasias. 

O problema está na fuga da realidade. É um tipo de sofrimento – talvez a raiz de todo sofrimento psíquico – o distanciamento da realidade. As palavras podem ser manipuladas e a imaginação tem a capacidade de gerar universos paralelos inteiros em relação à ordem natural das coisas. 

Este é o sofrimento daqueles que experimentam o amor platônico: imaginar um relacionamento amoroso. É também o sofrimento ansioso daquele que demora horas para dormir porque se prende a medos futuros. É a fonte da procrastinação daquele que passa horas se distraindo em redes sociais e não produz nada de útil durante todo o dia. É o que está relacionado com os invejosos cujo foco está na comparação com os outros. 

A lista poderia se alongar extensamente. Mas é nas relações amorosas que esta forma de romantismo tardio faz suas vítimas hoje em dia. Esta expectativa do relacionamento perfeito, de encontrar o(a) parceiro(a) inteiramente pronto(a), de não haver brigas ou desentendimentos, uma expectativa irreal de que o outro faça tudo segundo o meu script que, aliás, foi empurrado subrepticiamente através de desenhos da Disney e filmes românticos. 

Esta sanha por sentir demais, cada vez mais, esta busca por novidade afetiva/sentimental é um vírus psicológico, infelizmente, disseminado abundantemente nas mentes atuais. 

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