Moralidade e moralismo em psicopatologia

Moralidade

Quando estudamos a Ética a Nicômaco de Aristóteles compreendemos uma visão particular de moralidade. O primeiro capítulo – intitulado livro – enquadra a questão fundamental. As ações humanas buscam uma finalidade. Mas existem finalidades melhores que outras. O estudo das melhores ou da melhor finalidade a ser escolhida é um dos pilares da ética aristotélica. No segundo e terceiro capítulos, Aristóteles apresenta sua proposta da estrutura da psique e a noção de que o prazer e a dor são o fundamento da moralidade. Assim, buscar o que é proveitoso e prazeroso é bom, enquanto evitar o prejudicial e a dor é mal. 

No entanto, Aristóteles não é hedonista. O prazer é fundamento de tudo o que é bom para nós em diversos níveis. Por exemplo, o útil e o benéfico são outras dimensões do que é bom em níveis distintos do puramente físico. Há como que uma realização interior ao entregar um trabalho escolar ou profissional, quando acaba-se a leitura de um livro ou quando fazemos alguma ação boa, como dar esmola. Tudo isso participa da mesma experiência cuja raiz é o prazer. 

Nos próximos capítulos, Aristóteles apresenta diversas virtudes. Ele entende as virtudes como o resultado de ações praticadas com uma finalidade boa. Há, assim, diversas virtudes apresentadas. No entanto, sua análise se encerra na apresentação destas virtudes. Há, portanto, a nomeação das virtudes e sua descrição. Os atos que geram essas virtudes são caracterizados de maneira genérica e não há exemplos particulares de tais ou quais ações. 

Aristóteles visa estudar aquilo que é constante e regular – em suas palavras, podemos dizer o que não é mutável – mesmo num terreno extremamente escorregadio como o das ações e escolhas humanas. Isso é fundamental para se compreender a distinção entre moralidade e moralismo. 

Moralismo

O moralismo é muito bem observado no contexto religioso. É muito disseminado a compreensão de que a boa vivência religiosa se reduz a evitar os 10 mandamentos. Isso gera um estado de vigilância interior que apenas visa evitar o pecado. Embora observar os 10 mandamentos seja fundamental, reduzir a vida espiritual a isso é um erro com consequências psicológicas cruéis. 

Este, ao meu ver, parece ser o fundamento do moralismo no aspecto religioso. O ascetismo absoluto esconde um profundo rigorismo que mata a fé e o amor. A visão de Deus como um pai amoroso não é percebido, pois sua visão vingativa, como um justiceiro divino, é exagerada e não deixa espaço para a face misericordiosa. Na vida prática e psicológica, há um perfeccionismo brutal e uma vigilância constante. Acaba-se por cair no julgamento alheio, não deixando espaço para a caridade. Não há o desenvolvimento da fraternidade e amor ao próximo. Aumenta-se a soberba – por iludir-se em ser o juiz dos outros e da realidade – e também o ódio. Há intolerância, impaciência e muita altivez. Produz-se uma cegueira interior e uma grande incapacidade de ser criticado ou corrigido. São as cópias dos fariseus bíblicos. 

Este estado interior influencia as ações e opiniões das pessoas que assim vivem suas vidas. A moralidade passa a ser moralismo, uma degeneração e incompreensão. As ações passam a ser vistas em seu contexto particular e específico. Este ou aquele ato em particular é o pecado contra a castidade, como beijar o namorado. Há uma brutal limitação da noção de pecado e ofensa a Deus. Abre-se o caminho fértil para o escrúpulo. 

Esta mesma lógica também ocorre em contextos diversos que o religioso. Há o moralismo político, como quando não se pode usar tais ou quais palavras. Piadas deste ou daquele tipo são proibidas. Esta ou aquela idéia não são bem vindas e toleradas. 

No contexto psicológico a situação se torna muito mais profunda, pois é aí que achamos a raiz de todo este fenômeno. Pessoas muito rígidas, perfeccionistas, com uma autocobrança excessiva, baixa autoestima e baixa tolerância à frustração geralmente tiveram uma educação rigorosa somada a pouca disponibilidade afetiva dos pais. Isso gera o medo de errar ou fracassar, a busca incessante por evitar os defeitos e enaltecer as qualidades. 

O problema é maior quando a pessoa estrutura sua personalidade ao redor deste moralismo. Estruturar a personalidade significa estabelecer e cristalizar um padrão afetivo (modos de sentir), modos de perceber, modos de se relacionar (seja com situações, seja com coisas ou pessoas) e modos de pensar, refletir, tomar decisões e formar convicções e opiniões. 

Ou seja, estruturar a personalidade deste modo significa se identificar com esses padrões. No entanto, toda esta rigidez é causa de sofrimento psíquico. O mais comum é se apresentar na forma de insegurança e ansiedade. 

Aqui apresentei brevemente três tipos de moralismo: religioso, político e psicológico. Todos eles têm a mesma estrutura e se apresentam fenomenologicamente da mesma forma. Além disso, todos eles dão origem à hipocrisia: interiormente de um jeito, por fora de outro. 

A vida: o antídoto do moralismo

Da noção genérica de moralidade à particular de moralismo. É uma clara incompreensão e degeneração. A moralidade aristotélica não corresponde a decisões particulares, mas desenha linhas gerais de orientação para a vida. O moralismo, por outro lado, é apenas uma limitação brutal do primeiro. 

Creio que um antídoto eficaz para isso seja a correta compreensão da vida. Para usar um termo aristotélico, podemos identificar a vida com movimento. E movimento é mudança. Há mudanças radicais, mudanças parciais, mudanças dinâmicas e regulares. 

Uma mudança radical corrompe totalmente aquela substância, como por exemplo o osso se tornar pó. As parciais podem ser exemplificadas como a mudança da água do estado líquido para o gasoso, nada muda em sua substância. As mudanças dinâmicas e regulares são como o movimento do sol, as fases da lua e as estações do ano, apesar haver uma alteração, há um ritmo e um padrão muito bem observável e descritível. Os ciclos são bons exemplos de movimento para se pensar a vida humana. 

O moralismo, seja de qual forma for, bloqueia e sufoca o movimento natural da vida humana. Diante de todas as possibilidades e alternativas, de todas as tensões e dramas, diante dos fracassos, misérias, acertos e alegrias, o moralismo se apresenta como a foice da morte que destrói e corrompe todas essas vivências. 

Podemos até especular que a raiz de todo esse moralismo, pelo menos nesta perspectiva, seja o medo. Um medo visceral de se viver todas essas facetas e diversidades que a vida, em toda sua complexidade, nos apresenta. Porém, é um medo que também nos impossibilita de sermos plenamente humanos. 

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