Da centralidade do amor na vida psíquica

A vida interior possui uma estrutura e dinâmica próprias, assim como um desenvolvimento muito bem estabilizado. Como o corpo, a psique cresce e se expande. Nós percebemos esse crescimento através do maior domínio que o indivíduo tem ao longo da vida. Um bebê não possui o domínio do próprio corpo. Todos os seus movimentos são anárquicos e desorganizados. Mais tarde, ele começa a perceber que possui um corpo e que tal corpo é diferente de outros corpos, ou seja, do mundo exterior. 

É quando um bebê começa a brincar com o próprio pé e explorar a mão, e também quando leva outros objetos à boca que aos poucos ele vai estabelecendo uma relação com o mundo, entendendo que ele é diferente de tudo o mais. Antes disso, o indivíduo nem mesmo sabe que é gente. 

Quando o domínio do corpo alcança um nível mínimo, isto é, o bebê já senta ereto, engatinha, se dirige a objetos, é que se torna possível o desenvolvimento da fala. A linguagem é uma compreensão intelectual, porém só é possível compreendê-la a partir do movimento da própria boca que imita os adultos falantes. E é claro que a criança deve entender que há outras pessoas cuja capacidade de falar já foi desenvolvida. Os primeiros anos de vida são anos de profunda aprendizagem. 

Com a linguagem abrem-se portas muito mais amplas que a própria materialidade do corpo não era capaz de conceber. Pode-se pensar no tempo, em esperar a hora de comer, aprender hábitos de higiene e organização. As relações se tornam mais complexas. Agora o foco é o mundo exterior e toda sua complexidade. 

Ao chegar aos 4 ou 5 anos, uma criança mediana já dominou os rudimentos da linguagem e das funções psicomotoras. É hora de desenvolver outro elemento fundamental: os afetos. 

Afetividade

A vida afetiva é riquíssima e seu desenvolvimento bastante complexo. A afetividade pode ser entendida como a vivência emocional de uma pessoa. No entanto, ela não pode ser entendida em si mesma, mas como uma relação. Nos sentimos tristes, com raiva, ansiosos, receosos e de diversas outras maneiras em função de situações que acontecem conosco. Não só o meio externo, mas também sensações físicas nos agradam ou desagradam em diferentes circunstâncias. Tocar em um objeto frio numa noite de 10 graus celsius é uma experiência totalmente diferente de tocar no mesmo objeto frio na praia em Copacabana. 

Além de situações experimentadas e de diferentes situações, as emoções podem ser moduladas e até sofrer radicais mudanças a depender da interpretação que um sujeito realiza de determinada situação ou sensação. Por exemplo, é mais fácil aceitar uma verdade de um psicoterapeuta, muitas vezes, do que da própria mãe ou do namorado uma vez que o primeiro é relativamente neutro e desenvolveu uma relação mais distante afetivamente falando do que a estabelecida com a mãe e o namorado. 

Também as preferências pessoais influenciam diretamente na vivência afetiva. Como por exemplo, quem prefere o salgado ao doce vai ficar mais bem disposto e até feliz comendo esse tipo de comida em comparação com alguém que prefere doces. Mesmo quem prefere salgado, quando já está satisfeito não vai despertar as mesmas emoções ao experimentar uma coxinha do que se estivesse com muita fome. 

Nossa vida intelectual também altera nossas emoções. À medida que crescemos e entendemos que sentir e expressar certas emoções em determinados ambientes é adequado ou inconveniente, passamos a nos corrigir e nos policiar. Uma pessoa saudável entende que num enterro não é adequado fazer piadas livremente, pois despertaria o riso e galhofa, comportamentos e emoções inadequados e desrespeitosos em relação à família do morto e à própria situação. 

Em pessoas cuja educação foi muito severa e o desenvolvimento da afetividade foi negligenciado, há distorções mais ou menos rigorosas e inadequadas de sua vida interior. Pode-se evitar certos comportamentos, gestos e falas de modo que a pessoa toma um ar caricatural, teatral, exagerado ou inibido a depender de cada um. Os que tiveram maior negligência por parte dos cuidadores tendem a buscar mais afeto em suas relações, podendo se tornar pegajosos e até dependentes emocionalmente. Os que experimentaram uma educação severa podem evitar os erros e decepcionar os outros de uma maneira muito rígida e fixa. Em todos os casos, há a presença da afetividade moldando as experiências. 

O amor na vida psíquica

Dentre todas as emoções que existem, a mais importante no desenvolvimento interior de uma criança é o amor. Aqui me refiro ao amor dos pais para com os filhos, sobretudo em uma idade muito tenra, naquela em que o desenvolvimento da afetividade começa a se tornar o centro do desenvolvimento infantil, com aproximadamente 4 anos de idade. 

Aqui é importante definir o que estou chamando de amor. Amor é o ato de doação e entrega absoluta e incondicional dos pais ao filho. Em termos práticos, é gerar no filho o sentimento de segurança afetiva, de tal modo que o filho entenda que pode experimentar o mundo, errar e, mesmo assim, não perderá o amor dos pais. Infelizmente a experiência mais comum de pais que não são negligentes e distantes é a opção pela educação severa e superprotetora. Isso gera uma espécie de amor condicional em que a criança é aprovada em certos contextos e comportamentos e desaprovada em outros. 

No entanto, ao invés da criança entender que há certo e errado, ela entende que há modos de ser e não ser. Me explico melhor com um exemplo. Quando uma criança deixa seus brinquedos desarrumados e vai se dedicar a outra atividade, o pai ou a mãe briga severamente com ela, usando um tom de voz ríspido e agressivo, palavras duras, gestos agressivos, um olhar de ódio para a criança, ainda dizendo algo como “você não presta. Olha que bagunça você deixou”. Todos esses elementos juntos passam para a criança, com sua afetividade ainda em formação, a mensagem de que “não posso deixar os brinquedos desarrumados, pois caso eu faça perderei o amor e a estima do meu pai/mãe”. 

É preciso entender que o amor dos pais é a preocupação central na vida infantil. Sem esse amor, a criança sente-se insegura ao ponto do aniquilamento, ou seja, entender que será destruída, morta. Não só a criança do exemplo anterior aprende que deixar os brinquedos desorganizados é um sinal de perigo para si mesma, como ela generaliza a situação, entendendo que a desorganização é perigosa para si mesma. Isso pode gerar um adulto extremamente rigoroso com sua organização e higiene, uma vez que ele estabilizou uma relação de que “se eu não for organizado, não terei o amor (admiração ou estima) de outras pessoas”. 

Além disso, quanto maior for o rigor dos pais quanto à organização, mais profundamente marcado será tal aprendizado distorcido. Longe de entender que o certo é a organização, a pessoa internaliza que para sobreviver afetiva e interiormente, é preciso ser organizado. 

Uma única experiência não é suficiente para compor um traço de personalidade disfuncional na vida adulta. Mas a repetição quase que diária destas situações na infância vai moldando este traço e o imprimindo na personalidade do filho. Quando se chega aos 14 anos, o traço já está muito bem marcado. 

Psicopatologia e privação do amor

A disseminação assombrosa de pessoas ansiosas e inseguras, extremamente rígidas e apresentando extrema resistência à mudança pode ser explicada por esse tipo de experiência infantil cronicamente presente em seu desenvolvimento afetivo. 

São pessoas que infelizmente não estruturaram bem sua vida afetiva. É como se ao invés de se construir uma estrada em linha reta e asfalto plano, fosse construída com muitas curvas e buracos no asfalto. 

A vida afetiva assim constituída pode ser um fator de vulnerabilidade para ansiedade e mesmo depressão. O indivíduo não foi capaz de estabelecer estratégias maduras e saudáveis de enfrentamento e tolerância à frustração. Essa é uma das raízes que explicam relacionamentos tóxicos, disfuncionais e abusivos, e o comportamento de pessoas que mesmo sabendo de tal disfuncionalidade não conseguem se desprender da relação. 

É sem dúvida um cenário muito desanimador. A terapia é o local adequado para se trabalhar estas questões. A escuta atenta, empática e acolhedora do psicoterapeuta favorece a pessoa a entrar em contato com seu sofrimento e as experiências dolorosas que geraram esses traços de personalidade. A promoção do insight também é fundamental, proporcionando ao paciente maior compreensão do que ocorre com ele mesmo nas situações em que vive, suas decisões e como sua vida interior funciona. E o acompanhamento em todo o processo terapêutico, com as sessões semanais, ajuda a pessoa a perceber que há alguém andando junto com ela neste processo que sempre é difícil e penoso. 

O olhar amoroso do psicoterapeuta, por fim, é um grande bálsamo para o paciente. Aos poucos ele pode ir estabelecendo sua autoestima sem depender da estima alheia. Vai construindo e confiando em sua motivação interna, não apenas dependendo da motivação vindo de fora e dos outros. E aos poucos vai definindo uma vida que faça sentido para si mesmo, sem se esquecer do serviço e entrega ao outro. 

Assim, o amor gera amor. E com muita paciência e luta, as feridas do passado são substituídas por experiências autênticas no presente.

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