A substância da psicoterapia – O que faz o psicoterapeuta?

Já me perguntei muito o que faz um psicoterapeuta. O trabalho de um psicólogo não se reduz a uma conversa paga, assim como o que o paciente faz não é mero desabafar. Já brinquei afirmando ser a minha profissão um aconselhamento amoroso já que a maior demanda atual diz respeito a relacionamentos. E não podemos deixar de lado a galhofa segundo a qual o psicólogo é um fofoqueiro profissional. 

Brincadeiras à parte, nada disso é a substância da psicoterapia. Fofoca, aconselhamento e desabafo são acidentes, não substâncias do processo. Acredito atualmente ser a substância da psicoterapia o sofrimento e a dor. Por trás de palavras formais como “disfuncional”, “transtorno”, “diagnóstico” ou “sintoma”, a realidade de todo e qualquer fenômeno psicopatológico em consultório é o sofrimento. 

Diante do sofrimento, o psicoterapeuta tem o papel único de sustentá-lo junto ao paciente. Muitas vezes nós profissionais somos impotentes em relação às causas. Pacientes sofrem com uma doença terminal, com divórcio, com pais abusivos, com problemas financeiros. Nada disso um profissional pode resolver diretamente. Um leigo, por outro lado, certamente tentaria aliviar a dor o mais rápido possível. Vivemos numa sociedade hedonista. Não é permitido sentir dor. 

Mas meu trabalho é sustentar a dor. Isso certamente gera estranheza. Porém, não é prioritário, para um profissional da saúde, agir na dor, mas sim nas causas desta dor. O paciente na psicologia, por outro lado, precisa aprender a lidar com as frustrações e dificuldades da vida. É preciso trabalhar o processo de elaboração e aceitação da dor e do sofrimento. 

Esquecemos que a empatia – sentir com o outro – é também sofrer com o outro. E nada há de mais humano, nem de mais honroso que sofrer pelo outro. O sacrifício de sofrer com o outro é um poderoso fator de cura psicológica e talvez não haja uma técnica terapêutica mais eficaz do que a irrestrita e incondicional disponibilidade pelo paciente. 

Sofrer com o paciente significa que enfrentaremos a dor dele juntos. É caminhar com ele em suas cegueiras, em suas limitações, em sua recusa e revolta, em sua incompreensão. É servir de direcionamento momentâneo. 

Passar por esse inferno reserva, mais tarde, as portas do céu. É o que nos narra Virgílio na Eneida, Homero em sua Odisseia, Dante em sua Divina Comédia e tantos outros escritores e artistas cujo trabalho retrata essa experiência universal. Mesmo uma mãe ao dar à luz e se alegrar com a vinda do filho antes passou pelas mazelas das dores do parto. O estudante que passou horas de sacrifício em estudo para só depois conquistar uma boa nota. O atleta que treinou horas por dia antes da competição e, finalmente, de sua coroação. Ou o asceta cujos jejuns, esmolas e orações lhe outorgaram a entrada no céu. O sofrimento é parte inevitável da estrutura da realidade. 

Mas enfrentar a dor com o outro é também um peso. Só o psicólogo entende o esgotamento mental, mas também a profunda satisfação que o acompanha, depois de um dia cheio de atendimentos. Suportar a dor do outro não é fácil. Mas é tão digno quanto a condição humana.

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